Quando a alma deseja

A PALAVRA SÓ É LIVRE QUANDO FLUI PARA DENTRO DA MENTE, DO CORAÇÃO E DA
ALMA SEM RANCORES, DISTORÇÕES E FALSIDADES.

"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu.

Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito.

Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos.

Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade.

Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração.

Mas, depois de muita análise e observação, se você vir que algo concorda com a razão

e conduz ao bem e ao beneficio de todos, aceite-o e viva-o."

Sidarta Gautama (Buda)


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Ser bairrista, sim!

Amigos e amigas.
Tantas palavras simples e comuns foram transformadas com o tempo em termos pejorativos devido a situações e necessidades específicas, associações indevidas ou imposições. Posso citar os exemplos:

- Sinistro significa 'canhoto'. Mas, na época da Inquisição, quando a Igreja precisava "detectar o Mal, o Demônio", ela passou a dizer que 'ELE' se manifestava nos sinistros e era por isso que eles tinham essa 'distorção' de não usar a 'mão correta'. Lembrando: se você tem um dia azarado, você "acordou com o pé esquerdo". Em contrapardida, 'destreza' (grande habilidade) vem de 'destro' (quem usa a direita) e uma pessoa correta, preciosa, é 'direita'. A imposição dessa bobagem foi tamanha que, por séculos, se um bebê pegasse algo com a esquerda, os pais eram obrigados a ensiná-lo a não mais fazê-lo, sob pena de morte. Quantos de vocês (como eu) já ouviram histórias de pessoas que levavam reguadas da professora na mão esquerda sempre que "ousavam" pegar o lápis com ela? Isto no SÉCULO 20!

- Puta significa 'pura, ingênua', além de ser o nome de uma deusa romana da agricultura (abaixo de Ceres) que presidia a poda das árvores. Mas na época do Brasil Colônia (dos "coronéis"), quando chegavam "novas aquisições" ao bordel (em geral, "garotinhas" ou "putinhas"), o 'coronel' era avisado para 'fazer uma visitinha, conhecer, escolher, ser o primeiro'. Naturalmente, elas passavam a ser a sensação do local e pagavam o preço por essa notoriedade. As esposas dos 'bam-bam-bans' as execravam e associaram 'puta' com 'prostituta'.

Mas o motivo desta postagem é sobre outro termo: BAIRRISTA. Ele é associado a pessoas egoístas, separatistas, que só pensam na sua turma, avessas a dividir informações, benefícios, enfim, pessoas indignas de viver em sociedade por sua postura restritiva. Essencialmente, bairrista é quem é afeiçoado ao seu bairro, sua comunidade, que quer tudo de bom a seus vizinhos e a si próprio. Então, pergunto: o que há de mal nisto? Qual o problema desse tipo de egoísmo? Tem alguma nocividade?

Vejamos o ditado: "Devemos pensar globalmente e agir localmente". É o que o bairrista faz. Raul Seixas disse: "O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar." O bairrista também faz isso. Eu sou bairrista, sim! Sou contra priorizar a ajuda a outras regiões da cidade, estado ou país, relegando meu bairro a segundo plano (exceto se meu bairro conseguiu chegar a um nível de tranquilidade e satisfação que permita tal ajuda). Oras! Cada cidade tem seus políticos que tem a obrigação de zelar por seus munícipes, direcionando as arrecadações dos impostos às áreas mais necessitadas. E as cidades ainda recebem verbas do seu Estado, que recebe verbas da Federação. Tudo é mera questão de trabalhar o que possui e produz, investindo em todos os sentidos no desenvolvimento, principalmente no ser humano.

Não considero ser elitização elevar o status do meu bairro, melhorando o nível das construções, a limpeza das ruas e praças, a conservação e refinamento do patrimônio público (postes, árvores, bancos de praça,...), etc. E daí que isso vai encarecer os lotes, aumentar o custo de vida local, limitar a entrada de pessoas que queiram morar lá? Quem quiser morar lá, que se adapte ao nível alcançado! Quanto mais segurança, facilidades, opções de lazer, trabalho, educação, etc, tanto melhor para se viver. E não se consegue isso sem grande dedicação dos seus habitantes e grandes investimentos; e estes demandam mais investimentos na manutenção das benesses. Nesta equação, é natural que tudo se encareça.

Alguém vai querer me enganar dizendo que se deve socializar, facilitar cada vez mais o acesso de qualquer um que deseje se mudar pro seu bairro? Isto acontece o tempo todo nas periferias e nas favelas. Tal 'democratização' acaba gerando o que vemos o tempo todo em qualquer lugar do mundo que permitiu isso: pobreza, violência, insegurança, mortes, sujeira, má qualidade nas construções e conservação do patrimônio, etc. Que ninguém venha me acusar de qualquer tipo de preconceito racial ou social. Estou apenas ponderando que em NENHUM LUGAR DO MUNDO essa 'mistureba' deu minimamente certo. Isto é fato! Lamentável, mas "politicamente correto" às favas!

Até mesmo quando a Alemanha ocidental assimilou a oriental após a queda do Muro de Berlim, a coisa foi brava. Ela teve de assimilar todas as dificuldades e limitações econômicas da 'irmã', levando muitos anos para se equilibrar e equalizar tantas e tamanhas diferenças sociais. O que se vê hoje em dia por lá (e em muitos outros países europeus) é um país riquíssimo, mas enfronhado cada vez mais em convulsões sociais devido à imensa imigração que justapõe diversas culturas desarmônicas, religiões conflitantes, níveis sociais antípodas e intelectualidades díspares. Tudo isto limita o progresso, freia a evolução e fomenta a violência, a desunião e a desconfiança mútua. Como prosperar assim?

Concluindo: ser bairrista é a forma mais simples de se participar politicamente da construção, manutenção e progresso de sua cidade. Se você tiver uma "Associação de Moradores de Bairro", passe a participar dela mais ativamente, conclamando o maior número de vizinhos a fazer o mesmo. Nessas reuniões, podem (e devem) ser levados os problemas mais prementes que assolam sua comunidade e debatidos, procurando-se a melhor maneira de se solucioná-los. Chegando-se a um consenso, essas reivindicações precisam ser apresentadas aos vereadores e encaminhadas com urgência à prefeitura, cobrando-se diuturnamente de todos eles a maior presteza possível em suas realizações.

Se você não sair do seu comodismo, acreditando que sua única obrigação política é votar e o resto, deixar com seus "representantes", então, você merece suas carências e tudo o que os políticos não fazem por você. E se você crê que só deve se lembrar dos seus "representantes" quando precisar de alguma coisa ou favor particular, então, ratifico, friso e assino embaixo: VOCÊ MERECE!
FAB29 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Após o "11 de setembro",...

Amigos e amigas.
Muito se diz que o famigerado "11 de Setembro" foi uma armação do governo norte americano para ele usar como desculpa quando fosse encetar uma fase mais aguda de seu imperialismo.

O artigo abaixo é de um ano após o "ataque terrorista". Vê-se nele que tal esquema foi levado a sério pela potência ianque. Para "inibir" o terrorismo, os EUA militarizaram o mundo e começaram a 'desalojar' ditadores. O primeiro "país-vítima" da sanha estadunidense foi o Afeganistão e os 'tenebrosos talibãs'! A "limpa" vem aumentando: passou pelo Iraque, Egito, Síria, Líbia,... Pelo jeito, o último na mira é o Irã, pátria do "nefasto" Ahmadinejad, o "Hitler do séc. 21".
Uma década de horrores e não se vislumbra um fim aceitável.
FAB29


Uma rede militar global
Juan Carlos Galindo – 02/07/2002

A presença militar dos EUA no mundo aumentou uns 20 por cento desde os atentados de 11 de Setembro. Cerca de 300 mil soldados presentes em mais de 140 países velam pelos interesses da única potência mundial.
Alemanha e Japão, sem perdão
Os EUA aproveitaram a cobertura da operação militar conhecida como "Liberdade duradoura" para instalar bases no Uzbequistão (1000 soldados), Tadjiquistão e Quirguistão (mais de 3 mil). Presença essa que se vê fortalecida pelos 5 mil soldados estacionados nas bases do Afeganistão. Deste modo, os EUA asseguram-se uma influência decisiva e certa capacidade de controle na zona do Mar Cáspio: a região com reservas de recursos naturais inexplorados mais rica do mundo. Acaso? Altruísmo dos Estados Unidos? Defesa mundial da democracia?

No Golfo Pérsico, os Estados Unidos, em conivência com as despóticas monarquias que governam a zona, mantêm mais de 20 mil soldados:
- Mais de mil entre Omã, Emirados Árabes Unidos e Qatar;
- Outros mil no Bahrein (que, além disso, abriga o Estado Maior da Quinta Frota da Marinha)
- 4800 no Kuwait;

Mas é, sem dúvida, a Arábia Saudita o caso mais significativo. Neste emirado, os EUA têm três bases militares e mais de 5 mil soldados, caças F-15 e F-16, aviões "invisíveis" F-117 e aviões de espionagem U-2 e Awacs. Se excetuarmos a base "Príncipe Sultan", que está próxima de Ryad, a capital, as duas restantes situam-se no início ou no fim dos dois gasodutos que cruzam o país. E mais: uma delas, a base militar de Al Khobar, está junto ao porto petrolífero de Ras Tanura.

O controle militar da zona completa-se com a base Diego Garcia. Estas instalações militares, situadas na pequena ilha do Oceano Índico que lhe dá o nome, abrigam 4 mil soldados norte-americanos, caças e super-bombardeiros B-52. Os habitantes originários da ilha, de propriedade britânica e explorada em conjunto pelos EUA e pela Grã-Bretanha a partir dos acordos confidenciais assinados em 1964 pelas duas potências, foram "transferidos" em 1971 para as ilhas Maurício, a 1500 quilômetros da ilha Diego Garcia.

As bases militares de Morón e Rota (Espanha) e Aviano (Itália) realizam um trabalho logístico indispensável às operações dos EUA no Médio Oriente e na Europa. O mesmo acontece com os 2 mil soldados que as forças armadas norte-americanas mantêm na Turquia, lugar de onde decolam os caças que bombardeiam o norte do Iraque.

Na América Latina e no Caribe, encontram-se as bases militares de Aruba - Curaçao (Antilhas Holandesas), Comalapsa (El Salvador) e Manta (Equador). Esta última, situada no noroeste do Equador, permite às forças armadas norte-americanas controlarem toda a região andina e realizar trabalhos de vigilância em colaboração com o exército colombiano, ao mesmo tempo que serve de apoio para o desenvolvimento norte-americano na Colômbia.

Pior ainda é o caso da ilha de Vieques, a sudoeste de Porto Rico, utilizada há 60 anos como polígono de tiro da Força Aérea norte-americana e como zona de ensaio para as operações anfíbias das forças especiais da Marinha. Por causa destas ações, a saúde e a qualidade de vida dos seus habitantes viu-se brutalmente deteriorada. O controle indireto do Canal do Panamá é o objetivo das instalações militares dos EUA neste país. Além disso, as forças armadas norte-americanas contam com bases no território cubano (Guantanamo), Honduras e Barbados.

Em suma, mais de 100 mil soldados repartidos por todo o continente europeu. Na África, os EUA mantêm tropas no Egito, sócio tradicional da superpotência, que, além disso, é, depois de Israel, o segundo beneficiário das ajudas financeiras norte-americanas. O mapa da presença de tropas dos EUA no mundo completa-se com aquelas deslocadas no sudeste asiático. O domínio das águas do Pacífico é um objetivo estratégico tradicional dos EUA, acentuado na atualidade pelo aumento da importância da China. O exército norte-americano mantém 37 mil homens e 100 aviões de combate da última geração na Coréia do Sul, 50 mil soldados no Japão (sobretudo na base de Okinawa) e 600 soldados, dentre eles 130 dos corpos de elite, deslocados recentemente para as Filipinas. Operações realizadas no sul das Filipinas repetiram-se no Iemen e na Geórgia, onde mais de 200 soldados norte-americanos instruem o exército nas luta contra os "extremistas islâmicos".

terça-feira, 23 de outubro de 2012

De onde vêm os judeus?


Amigos e amigas.
Há um bom tempo, o historiador judeu Shlomo Sand publicou suas pesquisas sobre as origens do seu povo. Mostra que os sionistas são os responsáveis por toda a maquiagem e casuísmo presentes na historiografia do povo judeu. Causou um rebuliço monstro na comunidade judaica.
Vejam abaixo o porquê.
FAB29 
 
"Qualquer israelense sabe que o povo judeu existe desde a entrega da Torá no monte Sinai e se considera seu descendente direto e exclusivo. Todos estão convencidos de que os judeus saíram do Egito e se fixaram na Terra Prometida, onde edificaram o glorioso reino de Davi e Salomão, posteriormente dividido entre Judéia e Israel. E ninguém ignora o fato de que esse povo conheceu o exílio em duas ocasiões: depois da destruição do Primeiro Templo, no século VI a.C., e após o fim do Segundo Templo, em 70 d.C.
Foram quase 2 mil anos de errância desde então. A tribulação levou-os ao Iêmen, ao Marrocos, à Espanha, à Alemanha, à Polônia e até aos confins da Rússia. Felizmente, eles sempre conseguiram preservar os laços de sangue entre as comunidades, tão distantes umas das outras, e mantiveram sua unicidade.
As condições para o retorno à antiga pátria amadureceram apenas no final do século XIX. O genocídio nazista, porém, impediu que milhões de judeus repovoassem naturalmente Eretz Israel, a terra de Israel, um sonho de quase 20 séculos.
Virgem, a Palestina esperou que seu povo original regressasse para florescer novamente. A região pertencia aos judeus, e não àquela minoria desprovida de história que chegou lá por acaso. Por isso, as guerras realizadas a partir de 1948 pelo povo errante para recuperar a posse de sua terra foram justas. A oposição da população local é que era criminosa."

De onde vem essa interpretação da história judaica, amplamente difundida e resumida acima?

Trata-se de uma obra do século XIX, feita por talentosos reconstrutores do passado cuja imaginação fértil inventou, sobre a base de pedaços da memória religiosa judaico-cristã, um encadeamento genealógico contínuo para o povo judeu. Claro, a abundante historiografia do judaísmo comporta abordagens plurais, mas as concepções essenciais elaboradas nesse período nunca foram questionadas.


Paralisia unilateral

Quando apareciam descobertas suscetíveis de contradizer a imagem do passado linear, elas praticamente não tinham eco. Como um maxilar solidamente fechado, o imperativo nacional bloqueava qualquer espécie de contradição ou desvio em relação ao relato dominante. E as instâncias específicas de produção do conhecimento sobre o passado judeu contribuíram muito para essa curiosa paralisia unilateral: em Israel, os departamentos exclusivamente dedicados ao estudo da “história do povo judeu” são bastante distintos daqueles da chamada “história geral”. Nem o debate de caráter jurídico sobre “quem é judeu” preocupou esses historiadores: para eles, é judeu todo descendente do povo forçado ao exílio há 2 mil anos.

Esses pesquisadores “autorizados” tampouco participaram da controvérsia trazida pela revisão histórica do fim dos anos 1980. A maioria dos atores desse debate público veio de outras disciplinas ou de horizontes extra-universitários, inclusive de fora de Israel: foram sociólogos, orientalistas, lingüistas, geógrafos, especialistas em ciência política, pesquisadores em literatura e arqueólogos que formularam novas reflexões sobre o passado judaico e sionista. Dos “departamentos de história judaica” só surgiram rumores temerosos e conservadores, revestidos por uma retórica apologética baseada em idéias preconcebidas.

Ou seja, após 60 anos recém-completos, a historiografia de Israel amadureceu muito pouco e, aparentemente, não evoluirá em curto prazo. Porém, os fatos revelados pelas novas pesquisas colocam para todo historiador honesto questões fundamentais, ainda que surpreendentes numa primeira abordagem.

Considerar a Bíblia um livro de história é uma delas. Os primeiros historiadores judeus modernos, como Isaak Markus Jost e Léopold Zunz, não encaravam o texto bíblico dessa forma no começo do século XIX: a seus olhos, o Antigo Testamento se apresentava como um livro de teologia constitutivo das comunidades religiosas judaicas depois da destruição do Primeiro Templo. Foi preciso esperar até 1850 para encontrar historiadores como Heinrich Graetz, que teve uma visão “nacional” da Bíblia. A partir daí, a retirada de Abraão para Canaã, a saída do Egito e até o reinado unificado de Davi e Salomão foram transformados em relatos de um passado autenticamente nacional. Desde então, os historiadores sionistas não deixaram de reiterar essas “verdades bíblicas”, que se tornaram o alimento cotidiano da educação israelense.

Mas eis que, ao longo dos anos 1980, a terra treme, abalando os mitos fundadores. Novas descobertas arqueológicas contradizem a possibilidade de um grande êxodo no século XIII antes da nossa era. Da mesma forma, Moisés não poderia ter feito os hebreus saírem do Egito nem tê-los conduzido à “terra prometida” pelo simples fato de que, naquela época, a região estava nas mãos dos próprios egípcios! Aliás, não existe nenhum traço de revolta de escravos no reinado dos faraós nem de uma conquista rápida de Canaã por estrangeiros.


                             O exílio de poucos

Tampouco há sinal ou lembrança do suntuoso reinado de Davi e Salomão. As descobertas da década passada mostram a existência de dois pequenos reinos: Israel, o mais potente, e a Judéia, cujos habitantes não sofreram exílio no século VI a.C. Apenas as elites políticas e intelectuais tiveram de se instalar na Babilônia, e foi desse encontro decisivo com os cultos persas que nasceu o monoteísmo judaico.

E o exílio do ano 70 d.C. teria efetivamente acontecido? Paradoxalmente, esse “evento fundador” da história dos judeus, de onde a “diáspora” tira sua origem, não rendeu sequer um trabalho de pesquisa. E por uma razão bem prosaica: os romanos nunca exilaram povo nenhum em toda a porção oriental do Mediterrâneo. Com exceção dos prisioneiros reduzidos à escravidão, os habitantes da Judéia continuaram a viver em suas terras mesmo após a destruição do Segundo Templo.


Uma parte deles se converteu ao cristianismo no século IV, enquanto a maioria aderiu ao Islã durante a conquista árabe do século VII. E os pensadores sionistas não ignoravam isso: tanto Yitzhak ben Zvi, futuro presidente de Israel, quanto David ben Gurion, fundador do país, escreveram sobre isso até 1929, ano da grande revolta palestina. Ambos mencionam, em várias ocasiões, o fato de que os camponeses da Palestina eram os descendentes dos habitantes da antiga Judéia.

Mas, na falta de um exílio a partir da Palestina romanizada, de onde vieram os judeus que povoaram o perímetro do Mediterrâneo desde a Antigüidade? Por trás da cortina da historiografia nacional se esconde uma surpreendente realidade histórica: do levante dos macabeus, no século II a.C., à revolta de Bar Kokhba, no século II d.C., o judaísmo foi a primeira religião prosélita (que abraça outra. N.E.). Nesse período, a dinastia dos hasmoneus converteu à força os idumeus do sul da Judéia e os itureus da Galiléia, anexando-os ao “povo de Israel”. Partindo desse reino judeu-helenista, o judaísmo se espalhou por todo o Oriente Médio e pelo perímetro mediterrâneo. Assim, no primeiro século de nossa era, surgiu o reinado judeu de Adiabena, no território do atual Curdistão, e a ele seguiram-se alguns outros com as mesmas características.

Os escritos de Flávio Josefo são apenas um dos testemunhos do ardor prosélito dos judeus: de Horácio a Sêneca, de Juvenal a Tácito, vários escritores latinos expressaram seu temor sobre a prática da conversão, autorizada pela Mixná e pelo Talmude.

               A expansão para o leste europeu 
No começo do século IV, o êxito da religião de Jesus não colocou fim à expansão do judaísmo, mas empurrou seu proselitismo para as margens do mundo cultural cristão. Cem anos depois, surgiu o vigoroso reino judeu de Himiar, onde atualmente está o Iêmen. Seus descendentes mantiveram a fé judaica após a expansão do Islã e preservam-na até os dias de hoje. Da mesma forma, os cronistas árabes nos contam sobre a existência de tribos berberes judaizadas: contra a pressão árabe sobre a África do Norte no século VII, surgiu a figura lendária da rainha judia Dihya-el-Kahina. Em seguida, esses berberes judaizados participaram da conquista da península Ibérica e estabeleceram ali os fundamentos da simbiose particular entre judeus e muçulmanos, característica da cultura hispano-arábe. 

A conversão em massa mais significativa ocorreu, no entanto, entre o mar Negro e o mar Cáspio, no imenso reino Cazar do século VIII. A expansão do judaísmo do Cáucaso até as terras que hoje pertencem à Ucrânia engendrou várias comunidades que seriam expulsas para o Leste Europeu pelas invasões mongóis do século XIII. Lá, os judeus vindos das regiões eslavas do sul e dos atuais territórios alemães estabeleceram as bases da grande cultura ídiche.


Esses relatos sobre as origens plurais dos judeus figuram, de forma mais ou menos hesitante, na historiografia sionista até o início dos anos 1960. Depois disso, foram progressivamente marginalizados e, por fim, desapareceram totalmente da memória pública israelense. Afinal, os conquistadores de Jerusalém em 1967 deveriam ser os descendentes diretos de seu reinado mítico, e não de guerreiros berberes ou cavaleiros cazares. Com isso, os judeus assumiram a figura de éthnos específico que, depois de 2 mil anos de exílio e errância, voltava para a sua capital.


E os defensores desse relato linear e indivisível não mobilizam apenas o ensino de história: eles convocam igualmente a biologia. Desde os anos 1970, uma sucessão de pesquisas “científicas” israelenses se esforça para demonstrar, por todos os meios, a proximidade genética dos judeus do mundo inteiro. A “pesquisa sobre as origens das populações” representa hoje um campo legítimo e popular da biologia molecular, e o cromossomo Y masculino ganhou um lugar de honra ao lado de uma Clio (Clio é a musa da história e da criatividade, aquela que divulga e celebra as realizações. N.E.) judia na busca desenfreada pela unicidade do “povo eleito”.



Essa concepção histórica constitui a base da política identitária do Estado de Israel e é exatamente seu ponto fraco. Ela se presta efetivamente a uma definição essencialista e etnocentrista do judaísmo, alimentando uma segregação que mantém a distância entre judeus e não-judeus.


Israel, 60 anos depois de sua fundação, não aceita conceber-se como uma república que existe para seus cidadãos. Quase um quarto deles não é considerado judeu e, de acordo com o espírito de suas leis, esse Estado não lhes pertence. Ao mesmo tempo, Israel se apresenta como o Estado dos judeus do mundo todo, mesmo que eles não sejam mais refugiados perseguidos, e sim cidadãos com plenos direitos, vivendo como iguais nos países onde residem. Em outras palavras, um etnocentrismo sem fronteiras serve de justificativa para uma severa discriminação ao invocar o mito da nação eterna, reconstituída para se reunir na “terra dos antepassados”. 

Escrever uma nova história judaica, para além do prisma sionista, não é tarefa fácil. A luz que se refrata ao passar por esse prisma se transforma, insistentemente, em cores etnocêntricas. Mas, se os judeus sempre formaram comunidades religiosas em diversos lugares e elas foram, com freqüência, constituídas pela conversão, obviamente não existe um éthnos portador de uma mesma origem, de um povo errante que teria se deslocado ao longo de 20 séculos. 

Sabemos que o desenvolvimento de toda historiografia e, de maneira geral, da modernidade passa pela invenção do conceito de nação, que ocupou milhões de seres humanos nos séculos XIX e XX. Recentemente, porém, esses sonhos começaram a ruir. Cada vez mais pesquisadores analisam, dissecam e desconstroem os grandes relatos nacionais e, principalmente, os mitos da origem comum, caros aos cronistas do passado. Certamente os pesadelos identitários de ontem darão espaço, amanhã, a outros sonhos de identidade. Assim como toda personalidade é feita de identidades fluidas e variadas, a história também é uma identidade em movimento.