Quando a alma deseja

A PALAVRA SÓ É LIVRE QUANDO FLUI PARA DENTRO DA MENTE, DO CORAÇÃO E DA
ALMA SEM RANCORES, DISTORÇÕES E FALSIDADES.

"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu.

Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito.

Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos.

Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade.

Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração.

Mas, depois de muita análise e observação, se você vir que algo concorda com a razão

e conduz ao bem e ao beneficio de todos, aceite-o e viva-o."

Sidarta Gautama (Buda)


sábado, 13 de abril de 2013

Amor além do fim

Amigos e amigas.
Há um bom tempo, ouvi uma história de um cara que contou que seu pai, um matuto daqueles bem broncos, tinha um cachorro que criou desde recém-nascido, pois a mãe havia morrido dois dias depois do parto. Os outros três haviam nascido mortos e esse quarto, muito fraquinho. Com aquele "trocinho" nas mãos, jurou que não ia deixá-lo morrer também. Como não tinha condições de levá-lo a um veterinário (além do mais próximo estar a quilômetros do seu sítio), o matuto foi alimentando o pequenino com leites de cabra e de vaca, cuidando de toda e qualquer enfermidade com zelo de médico/enfermeiro e acalentando-o num bercinho de pano que ficava entre ele e a esposa na cama durante a noite.

Os dois primeiros meses foram um sacerdócio, uma devoção emocionante que dificilmente se esperaria de um analfabeto rústico e áspero. Ele passava até noites em claro para dar mamadeira pro "filhinho" ou "trocar o berço". Passado esse tempo critico, o pequenino, já batizado de Tindin por causa do seu aspecto mirrado, já andava pela casa ainda meio se arrastando, mas feliz e animado com tudo. Antes de um ano, seu crescimento foi incrível, pois aquele "trocinho" virou um gigante de quase 20 kg e era um grude tão grande com seu dono que parecia uma extensão dele.

Sob qualquer situação, Tindim fazia tudo por seu dono e vice-versa. Até quando tinha os "arrasta-pé" nos sítios vizinhos, Tindim era um "convidado especial" e acompanhava seu dono até mesmo quando este ia dançar no salão. Era maravilhosamente hilário vê-lo seguindo os passos do casal, muitas vezes, dentro do ritmo. Todos se esbaldavam com o show.

O tempo passou e a dupla superou todas as agruras que surgiram em seus caminhos, ora pra um, ora pra outro. Um era companhia constante "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença" do outro. O maior baque foi quando a esposa do matuto faleceu de um derrame cerebral fulminante. Tindim tinha 5 anos e se tornou mais ainda companheiro, passando a dormir num berço que seu dono montou pra ele no quarto.

A vida prosseguiu normal até Tindim atingir 14 anos e mostrar sinais de dores constantes e extrema fraqueza. O matuto comentou com amigos que estava sendo mais difícil ver seu bichinho naquele estado do que a perda da esposa. Afinal, a morte súbita dela gerou um choque, um sofrimento concentrado em alguns dias e ainda havia um apoio mútuo para compensar. Mas ver Tindim, sempre um dínamo vivo, naquele estado de prostração, mal conseguindo se erguer, estava destruindo o matuto emocionalmente. Aquele homem rígido como uma rocha estava se esboroando.

Um dia, após passar a noite pensando no enorme sofrimento de Tindim, que parecia se recusar a abandonar seu amigo a despeito de estar pra lá de fraco, mal se alimentando, o matuto chegou à conclusão que deveria sacrificá-lo. Ele se aproximou do amigo, deixando a espingarda num canto, já carregada. Com a voz travando, começou a conversar com Tindim, como tantas vezes fez:

- Amiguin, óia... Eu quiria ti dizê qui ocê é o amigo mais batuta qui inziste. Pra mim, ocê é mió qui gente!... - Sua voz começou a embargar, lágrimas se formaram e começaram a rolar em sua face pela primeira vez em sua vida - Como eu quiria qui ocê vivesse mais do qui eu!... Pensá qui ocê tá ino imbora... - Nem respirando bem fundo, ele conseguia evitar que o choro entremeasse suas palavras - Mais num deu, né? Deus qué ocê prele! Aquele iguísta!... Eu quiria qui Ele ti levasse imbora, mais... - Alguns segundos de pausa - Pur favô, amiguin, mi perdoa! Eu num sô forte qui nem ocê! Eu num guento ti vê ansim... Óia, eu... eu ti prometo qui...!

Durante todo o tempo, Tindim olhava seu dono sem conseguir erguer a cabeça, mas com o rabinho abanando sempre, como se compreendesse o drama do seu dono e dissesse: "Não fique assim! Eu farei o que você precisar". Não conseguindo falar mais nada, com os olhos marejados e todo o peso da angústia e da culpa que se avizinhava pelo que se via obrigado a fazer, o matuto foi pegar a espingarda. Levou cinco segundos pra voltar e percebeu que Tindim não mais respirava e seu coração havia parado: ele havia partido, poupando seu amigo de tudo o que iria advir do seu ato.

Acarinhando o rosto do seu "filhinho", ele chorou e lhe agradeceu pelo seu último gesto de amor e compreensão. Tindim, mesmo já morto, retribuiu com um último abanar de rabo.

Certa vez, uma criança disse o por quê dos cachorros viverem pouco: é porque nós estamos aqui para aprender a nos purificar para retornarmos a Deus melhores do que chegamos. Como os cachorros são completamente puros, eles não precisam aprender nada. Então, ficam por aqui o suficiente, só para nos ajudar a sermos pessoas melhores. Mas muitos não aproveitam esses anjos para evoluir. São seres vazios que não encontrarão a paz espiritual tão cedo.

FAB29