Quando a alma deseja

A PALAVRA SÓ É LIVRE QUANDO FLUI PARA DENTRO DA MENTE, DO CORAÇÃO E DA
ALMA SEM RANCORES, DISTORÇÕES E FALSIDADES.

"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu.

Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito.

Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos.

Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade.

Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração.

Mas, depois de muita análise e observação, se você vir que algo concorda com a razão

e conduz ao bem e ao beneficio de todos, aceite-o e viva-o."

Sidarta Gautama (Buda)


sexta-feira, 7 de março de 2014

Dumb Schindler

Amigos e amigas.
Graças a um bom colega do blog (Peterons), consegui obter a entrevista que Emilie Schindler deu à Folha em 14/10/1993. Nessa antológica (e "meio sumida") entrevista, ela "chuta o balde" do livro, do filme e do meio incompetente e quase nobre marido. Claro que mais tarde, ela foi convencida a amenizar o tom e elogiou o filme, etc.
Resolvi transcrevê-la para simples registro. Comprovem.
FAB29

Folha: Como foi a participação do seu marido na história filmada por Steven Spielberg?
Emilie: Eu conheci Spielberg agora, quando fui a Jerusalém participar do filme. É um moço simpático, me tratou bem. Mas o filme está errado. O livro ("Schindler's Ark", de Kennealy) em que se baseou não é bom. Há muita coisa inventada. Não foi Schindler, fui eu. Schindler não fazia nada, era um pobre coitado.

Folha: Mas ele não salvou 1200 pessoas, 1200 judeus, durante o nazismo?
Emilie: É verdade que ele fez a lista, mas é também verdade que eu arrumava a comida. Schindler só dizia: "Façam isso, façam aquilo!" Schindler não fazia nada, não sabia nada. Era eu quem cuidava deles.

Folha: A senhora os conhecia?
Emilie: Não. Eu só arrumei a comida. Uma vez, Schindler foi comprar farinha. Não havia farinha. Estávamos em 1944, não havia comida nem para os alemães. A comida era racionada e ele tentou trocar diamantes por comida. Não deu certo. Aí, eu fui conversar com uma mulher, uma nobre, que era cona de um moinho, e ela me disse para ir com um caminhão da fábrica buscar farinha. E nós fomos. A fábrica ficava ao lado do moinho. O caminhão saiu de um portão e entrou no outro. Vivemos meses com aquela comida.

Folha: E seu marido.
Emilie: Bom, ele arrumou vodca polonesa e eu troquei aquela vodca por aveia com um funcionário do moinho. Também ajudou. Eu ainda consegui carne. Troquei com um veterinário que arrumava carne de animais mortos, feridos. Ele queria café e nós tínhamos café. Aguentamos.

Folha: Quando os russos chegaram, em maio de 1945, como foi?
Emilie: Terrível! Os nazistas, os SS, fugiram todos. Entraram num caminhão com um monte de secretárias e fugiram. Não sei se algum sobreviveu. Dos operários, sei que sobreviveram muitos, alguns dos quais eu reencontrei em Jerusalém. Na hora, foi cada um para o seu lado. Nós fomos para a Alemanha. Foram tempos bem difíceis; depois, viemos para a Argentina.

Folha: Onde a senhora conheceu Oscar?
Emilie: Schindler e eu éramos da mesma região, dos Sudetos, na época, Império Austríaco. Hoje, é Tcheco-Eslováquia (Na verdade, a Tchecoslováquia foi desmembrada em dois países e Emilie vem de onde fica a República Tcheca). Fica perto de Pilsen. Vivemos sempre lá, até a anexação pelos alemães. Minha família e a dele eram de fala alemã. Em  1939, fomos para a Polônia, para Cracóvia. Eu fiquei vivendo lá e Schindler depois foi para outra cidadezinha, onde ficava a fábrica. Eu nunca fui lá.

Folha: E depois da guerra?
Emilie: Viemos para a Argentina, depois de uma época na Alemanha. Tínhamos uma granja, uma pequena propriedade aqu em San Vicente (uma cidadezinha da periferia de Buenos Aires, cheia de chácaras e pequenos sítios). Schindler era um doido. Queria uma criação de martas para vender a pele. Eu disse que não ia dar certo. Não deu. Um dia, ele disse que iria à Alemanha, buscar o dinheiro da indenização. Nunca voltou. Soube dele muito depois. Morreu e foi enterrado em Jerusalém. Era um homem estranho.

Folha: E a senhora?
Emilie: Eu fiquei por aqui. Em 1962, 1963, vendi a propriedade para pagar as dívidas que Schindler tinha deixado. Se não fosse pela B'Nai Brit (uma organização de ajuda da comunidade judaica), que me arrumou esta casa e o terreno, não sei como estaria.

Folha: Os judeus ajudaram?
Emilie: Foi. Eles sabiam da história. Eu tinha muitos conhecidos judeus. Um deles, Simon Muchnik, era meu médico. Era uma boa pessoa, muito respeitado. Eles me ajudaram. Eu vim para cá, criei bois naquele quintal lá do fundo, criei galinhas, plantei. Sobrevivi.

Folha: Onde a senhora aprendeu a cuidar de animais?
Emilie: Meus pais eram agricultores. Se não fosse por isso, pela minha habilidade com animais e plantas, não sei como teria sobrevivido.

Folha: A senhora tem filhos, parentes?
Emilie: Não tenho filhos. Só gatos e um cachorro. Tenho uma sobrinha por parte do Schindler, que eu cuidei depois da guerra e que já veio aqui uma vez, me visitar. Fomos juntas a Foz de Iguaçu. Tenho amigos que vivem em Nova York. Fui quatro vezes lá. Devo ir de novo, no final do ano, ver o filme.

Folha: O que a senhora acha do seu marido?
Emilie: Olha, eu não penso nele. Ele era meio louco. Um estúpido.

Fonte: http://acervo.folha.com.br/fsp/1993/10/14/21/

Vejam este relato de um repórter sobre a vida de Emilie:
http://cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=1921

Para mais informações:
http://www.causanacional.net/index.php?itemid=108

http://verdadehistorica.wordpress.com/2009/01/04/a-lista-de-schindler-e-goldberg/