Quando a alma deseja

A PALAVRA SÓ É LIVRE QUANDO FLUI PARA DENTRO DA MENTE, DO CORAÇÃO E DA
ALMA SEM RANCORES, DISTORÇÕES E FALSIDADES.

"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu.

Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito.

Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos.

Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade.

Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração.

Mas, depois de muita análise e observação, se você vir que algo concorda com a razão

e conduz ao bem e ao beneficio de todos, aceite-o e viva-o."

Sidarta Gautama (Buda)


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Cada um na sua!

Amigos e amigas.
Li um artigo do sr. Sidney Silveira, do blog Contra Impugnantes, chamado "Amanhã vai ser outro dia..." que me causou certa espécie. Nele, seu autor conta que, numa conversa de botequim há muitos anos, ele arrumou uma pequena celeuma ao não apenas discordar, mas até 'PROVAR' que Chico Buarque não é um gênio. Vejam este trecho:

"Mas “gênio” era adjetivo a ser usado com parcimônia, pois a humanidade não os produz aos montes, e geralmente se trata de homens realizadores de feitos extraordinários. Citei então alguns gênios da filosofia, da literatura, da ciência, da pintura, da oratória, da escultura e da música, e quase levei com o pandeiro na cabeça.

No decorrer da conversa, mostrei conhecer melhor as músicas do referido compositor que o meu etílico conversador de botequim — e apontei como o popularesco delas esbarrava não raro em erros de português e de estilo, como também imprecisão no uso das vozes verbais e mistura das pessoas gramaticais em versos de uma mesma composição. Afirmei isto sem deixar de reconhecer-lhe o engenho nas rimas e o artesanato na escolha das palavras, sobretudo em suas músicas mais antigas, nas quais há metáforas bem urdidas e agradável melodia e harmonia, porém reafirmei que isso era pouco para alguém ser considerado gênio."

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Um "bate-e-assopra" digno de diletantes que adoram contestar por contestar, bem ao estilo "Hay gobierno? Soy contra!!"

Vejamos: qualquer pessoa minimamente racional ou imparcial jamais misturaria ou compararia a genial obra de Chico às obras de gênios universais da Música (Beethoven, Villa Lobos), da Poesia (Pessoa, Drummond) ou da Literatura (Guimarães Rosa, Dostoiévski). Chico (eu, também) é admirador e servo dessas sumidades que marcaram a História da Humanidade. Cônscio disso e de seus limites, além de ter a simples intenção de fazer MPB de qualidade, ele procura assimilar tudo o que lê, filtrando, processando e produzindo obras para a população em geral, acessíveis à cognição coletiva, simples sem ser simplório.

As "falhas" a que o douto articulista se refere (a maioria, eu desconheço. Bom não ser um gênio!) são de plena consciência do Chico, não tenho dúvidas. Exemplo de "mistura de pessoas gramaticais em versos de uma mesma composição" é visto em "Quem te viu, Quem te vê". A letra é em primeira pessoa ("Você era a mais bonita...") e APENAS na frase do título é que está na segunda pessoa. Afinal, é uma frase popular, disseminada, totalmente informal, usada por todos dessa maneira. Chico demostraria um pedantismo intolerável se construísse a letra na pessoa da frase ("Tu eras a mais bonita...") ou cometeria um crime ao folclore literário se alterasse a frase só para se adequar à sua letra ("Quem lhe viu, Quem lhe vê"). UUUGH!!! Perdão pelo chute gramatical! Doeu até em mim!

Em outra canção ("Até o fim"), Chico usou um termo (quase um neologismo?) para manter a métrica e a sonoridade da canção: "Eu já nem lembro pronde mesmo que vou". Esta aglutinação, além de bela, é plenamente saudável na língua informal, totalmente acessível a qualquer pessoa e não deveria ofender ouvidinhos sensíveis como os do articulista acima ou de analistas gramaticais.

Logo se vê que Chico não se arvora em ser classificado como um gênio, uma sumidade, uma unanimidade, tanto quanto eu também não desejo que todos concordem com minhas opiniões e observações. Ele apenas e tão somente produz música POPULAR brasileira de alta qualidade, muito acima da média, com laivos de originalidade, engenhosidade e primorosidade que bem poucos conseguem, nunca permitindo que seja algo tão complexo que fique relegado a uma casta de privilegiados intelectuais. Gostar é outro assunto. Dificilmente sua obra agrada a metaleiros, funkeiros, "axézeiros" ou a outros dessa trupe. Mas as de Beethoven, Pessoa e Guimarães Rosa também não. Cada coisa é uma coisa! Cada coisa em seu lugar!

Resumindo: o "etílico conversador de botequim" estava certo: Chico é, sim, um gênio POPULAR. No que tange à obra que se presta a fazer, a quem deseja alcançar e a capacidade e universalidade que demonstra para conseguir seu intento, ele cumpre os parâmetros de sobejo! É "muito pouco" para se comparar aos verdadeiros e incontestáveis gênios citados e outros? Concordo! Mas é suficiente para colocá-lo em total e absoluto destaque no panteão da MPB? Sem a mínima dúvida! Neste ponto, ele é genial!

E não é preciso ser um gênio para se constatar tal obviedade.
FAB29