Amigos e amigas.
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| O mestre |
Quero fazer esta
colocação para mostrar o que penso, como vejo e o quanto repudio as sutis grotescas colocações que pseudos em geral se arvoram em regurgitar, possivelmente por narcisismo torpe ("Falem mal, mas falem de mim").
O título é uma
referência a uma canção de Chico Buarque ("Não fala de Maria").
Com ele, quero chamar atenção à estupidez, mesquinharia, hipocrisia,
maledicência e sordidez de tantas correntes que visam achincalhar e solapar a
Arte e a Cultura brasileiras.
São "N"
exemplos, mas vou me ater a dois, referentes justamente a Chico Buarque. Há
uns 15 anos, a Folha de São Paulo publicou o resultado de uma enquete que
revelou quais as melhores músicas da história da MPB. Dezenas de jornalistas,
críticos e artistas foram convidados a votar nessa eleição.
A campeã foi "Águas
de março", de Tom Jobim, seguida de "Construção",
do Chico. É óbvio que todo e qualquer resultado daria margem à contestação e
desagrada a estes e àqueles. O que me pegou foi uma declaração do Erasmo
Carlos, que afirmou que "Construção" não merecia
figurar na lista porque "é uma bela letra, mas tem uma melodia muito
fraca". Além de quê, vários a taxam de "muito
chata". [Detalhe: ele, Erasmo, foi um dos votantes da enquete e, na sua
lista, figurava uma música dele próprio. Quanta modéstia!...]
Eis como vejo a referida
canção: imaginem a construção de uma casa. Ela tem três etapas (como na
música). A primeira é suas fundações e o erguimento de suas paredes ("Tijolo
com tijolo num desenho lógico") e telhado. É sempre a mesmíssima
coisa, extremamente enfadonha, repetitiva, monocórdica, metódica. Percebam que
Chico demonstrou exatamente tudo isso na melodia da primeira parte. (Não que eu
a ache tudo isso. Eu adoro a música! É apenas uma análise pura e simples.)
Na segunda parte, a
construção se refina: há a colocação de massa corrida, azulejos, portas, pisos,
janelas, conjunto de louças, encanamento, fiação,... que exigem muita
precisão e zelo. E a segunda parte da canção também é mais elaborada, com a
entrada de uma orquestração, de outras vozes auxiliando Chico e a alteração da
última palavra de cada verso, enriquecendo ainda mais o sentido da letra (por
exemplo, trocou "Seus olhos embotados de cimento e LÁGRIMA"
para "TRÁFEGO").
E qual é a terceira
parte de uma construção? O toque final? A pintura. E, em geral, no lado de
fora, se acrescentam floreiras, cimentados, pedras ou outras milongas. E, na
música, há suas "milongas": Chico e o MPB4 se intercalam nos vocais
de cada verso e finalizam com um trecho de "Deus lhe pague".
Notaram que a música
"CONSTRUÇÃO" denota exatamente uma CONSTRUÇÃO? Para
mim, coisa de gênio!
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| Manuscrito do mestre |
O segundo exemplo se refere a uma das mais recentes canções do
Chico: "Querido Diário". Eis a estrofe que gerou tanta polêmica e exacerbações da
turminha especializada em procurar pêlo em ovo:
"HOJE, PENSEI EM
TER RELIGIÃO.
DE ALGUMA OVELHA,
TALVEZ, FAZER SACRIFÍCIO;
POR UMA ESTÁTUA, TER
ADORAÇÃO.
AMAR UMA MULHER SEM
ORIFÍCIO"
Entre tanta porcaria que
falaram, um belíssimo imbecil classificou o último verso como "O PIOR
VERSO DA MPB DE TODOS OS TEMPOS!". Confesso que, quando escutei a
música pela primeira vez, levei um choque nesse verso (Óbvia intenção do
autor). Mas não estamos falando de um coió (Luan Santana, Sorocaba, Latino,
Ivete,...) que faz qualquer coisa para aparecer. Vejo o rapaz como o maior
ícone da MPB de todos os tempos. Isso sempre me fará analisar suas palavras com
toda a atenção, por mais que, a priori, me causem espécie. Meu irmão
classifica Chico como "um
cara que causa cosquinhas no cérebro".
Após reler a estrofe e
ponderar, não consegui resistir a um "FILHO DA MÃE!!"
Isto porque acredito ter compreendido a intenção do moço. (Claro que posso
estar quadradamente enganado, mas não creio): nós só estamos vivos por causa de
nossos orifícios. Através deles, respiramos, comemos, cheiramos, ouvimos,
enxergamos, excretamos, suamos, transamos, nascemos. Essa simples ponderação
buarquiana é uma ode à vida!
Analisando cada verso: No
primeiro, ele demonstra que nunca seguiu nenhuma religião e cogita começar a
fazê-lo. Daí, começa a ponderar as possibilidades. No segundo verso, alude ao
judaísmo, com seus holocaustos. No terceiro, ao cristianismo, que louva
imagens. De repente, no quarto verso, pára e comenta uma conclusão que lhe
assaltou a mente.
E é um comentário que
QUALQUER PESSOA NORMAL faria! Eu mesmo nunca fiquei à vontade louvando e
reverenciando uma estátua sacra quando ainda frequentava missas na
adolescência. Isto porque eu tenho toda a fé nas pessoas, na vida, na natureza,
na Criação. ENERGIA VIVA!! Chico também! Ao proferir o último verso, ele apenas
exprimiu que essa adoração a uma coisa inanimada iria contra tudo o que ele
sempre pensara e fizera.
Viver é uma eterna troca de idéias, sentimentos, fluidos, entre seres VIVOS. O
simbolismo de transferir sua fé para coisas frias, sem reação, e nelas,
cultivá-la, não lhe é atraente.
Conclusão: está cada vez
pior viver numa sociedade tão medíocre (educadamente falando) que relega tantas
capacidades monumentais como Chico à ralé cultural! Essa mesma sociedade que
faz vistas grossas a tanta incultura e vilipêndios à arte em geral. Que se
esbalda com tanto funk, axé, "sertanojo" e tantas 'expressões
artísticas' que priorizam o inútil, o banal, a "bagaceira". O que têm
de vermes, baratas e parasitas à espreita, esperando qualquer oportunidade para
sair à luz e "se dar bem" não é pouca coisa! E nada como aproveitar
um "deslize" (que ELES acreditam assim ser) de um gigante para ter
seus segundinhos de fama!...
Daí, reforço o título: NÃO FALA DE CHICO! É crime de lesa-Arte reduzi-lo à insignificância que os "Prostituidores do Mundo" constantemente impõem à vida, impedindo-nos de evoluir mental, emocional e espiritualmente! Minha mãe sempre me ensinou assim: "Meu filho, se você não tiver nada de bom, útil ou producente para dizer, fique quieto!".
Mas, para nossa infelicidade, os "Prostituidores" jamais permitirão evoluir. Por isso, cabe a cada um desenvolver um ou mais filtros que impeçam a invasão de tanto lixo que a Grande Mídia vomita diuturnamente em nossos orifícios!
FAB29

