Amigos e amigas.
Sempre que assisto a
reportagens sobre as periferias, principalmente as dos 3º e 4º mundos, tantas
indagações me vêm à cabeça, além de sentimentos antípodas que vão da
comiseração à revolta.

Eu me imagino parado no
"ponto médio entre as
classes sociais". Olho para um lado e vejo uma pequena
quantidade de pessoas nadando na opulência e mordomias, ignorando olímpica
e soberbamente todo o resto. Olho pro lado oposto e vejo um verdadeiro
oceano de miseráveis se acotovelando no meio do lixo, lutando por migalhas
mofadas do banquete dos bilionários e olhando com desespero e inveja além
do quase inexpugnável abismo que os separa das benesses do mundo.
Passando por mim,
há muitos tubos: alguns descarregam tudo o que já foi usado pelos
"Altos" no fosso onde chafurdam os "Baixos". Outros tubos
estão conectados a máquinas que funcionam à base do trabalho escravo da massa
desvalida e sugam suas forças impiedosa e constantemente. Onde estou,
há uma grande quantidade de pessoas que tem condições de se sustentar,
ainda que a duras penas; outras, com mais tranquilidade. A maioria delas tenta
como pode sair desse limbo, acossada pela imensa turba de miseráveis e
desprezada pela "nata" da sociedade. Nessa situação, esses "Médios"
vivem a escorchante dicotomia de se apiedar dos decrépitos e almejar o
topo. Meu estômago embrulha.
Já na realidade, observo
aquela notória e inacreditável quantidade de barracos equilibrados em
palafitas, ou na encosta de morros, ou à beira de córregos poluídos, totalmente
vulneráveis a desastres e intempéries. A quantidade de pessoas por barraco é
espantosa; a situação do saneamento e da qualidade das construções é
alarmante; é criminoso ver a quantidade de crianças brincando nos únicos e
pútridos lugares de que dispõem, expostas às degenerescências (de doenças à
violência) que o mundo possui. A violência é um rastro de pólvora que
passa por quase todos os lugares, só esperando uma fagulha para se detonar. A
miríade de sentimentos que se misturam nos olhares, gestos, falas, risos,
choros e lamentos é tão densa que assusta, oprime e, às vezes, até causa
repulsa a quem quer que passe por ali. Mas seus habitantes parecem sedados a
tudo isso; arrastam suas vidas povoadas de problemas constantes,
esperanças baldadas, traumas encruados e sonhos. Apenas sonhos. Meu estômago
azeda.
Em contraste, vejo, escuto e assisto a tanta orgia em todos os sentidos: corrupções, desvios de dinheiro, assaltos, desperdícios, ostentação, soberba, sodomia, pornografia, pedofilia,... Tudo fazendo girar a Roda da Fortuna em favor de uma casta de "eleitos privilegiados", pessoas medíocres que são alçadas à notoriedade, ao glamour, aos holofotes. Extasiadas e embriagadas com tanta atenção e fartura, essas bizarras criaturas recicladas, produzidas, pasteurizadas e nos imputadas por uma mídia a serviço do "Poder das Sombras" são o 'front' da guerra que esse "Poder" fomenta contra a sanidade das massas. Sempre que nos deparamos com toda a pantomima pantagruélica dessa estirpe torpe através dessa mídia vendida, sentimo-nos cada vez mais alijados de tudo o que existe de saudável em todos os sentidos, principalmente no espiritual. Este massacre mental e imoral tem a sórdida intenção de assim dizer: "Vejam todas as possibilidades que existem. Eles conseguiram. E você? O que está esperando? O que você está disposto a fazer ou vender para ter tudo isso?" Proporcionalmente ao que você oferece, eles o avaliam e "abrem o espaço que você vale" ou equivalente ao lucro que sua 'alma entregue' pode auferir a eles. Meu estômago revira.

E nós, pobres seres
que crêem possuir certo discernimento e consciência, nos vemos cada vez
mais enredados nessa teia de horrores, contando com a sorte e a Providência
Divina para nos mantermos vivos e bem. Através do suor do nosso trabalho,
conseguimos minimamente nos sustentar; com a boa educação que recebemos de quem
amamos, mantemos viva a chama da união e do bem querer; nos valendo de nossos
instintos e experiência adquirida, criamos um nicho de conforto para nossos
queridos, uma fonte de luz aos que buscam uma orientação e um exemplo de
civilidade e humanismo à grosseria, mau humor e ranços que exalam de cada
mentalidade deturpada por toda essa sanha há tanto cevada no seio da
humanidade.
Vemos e sentimos este
rancor na falta de gentileza no trânsito, na impaciência no comércio,
nas picuinhas no trabalho, na falsidade nos entretenimentos, no desamor no lar,
em cada recôndito. É uma panela de pressão que precisa que sua válvula de
escape não entupa ou estrague. O mais correto seria apagarmos o fogo que a faz
ferver, fogo este que foi ateado e é constantemente alimentado pelo "Poder
das Sombras" e seus asseclas, aqueles agentes insidiosos que se vestem de
cordiais transeuntes, colocam uma máscara para cada situação e se utilizam de
palavras bem ensaiadas para qualquer ocasião. Se houver medo, eles se fingem
protetores; se houver revolta, eles se mostram apoiadores; se houver certeza,
eles a minam tacitamente; se houver dúvida, eles a alimentam, tergiversando; se
houver perigo a seus donos, eles procuram demover o recalcitrante de suas
intenções, usando desde evasivas até ameaças. Assim, procuram garantir suas
posições de escudeiros dos "hómi" e capatazes da plebe. Meu estômago
trava.
Com tudo isso, como é possível continuarmos a ser tão cordatos e cordeiros? Que passividade atroz tomou conta das pessoas? Esse comodismo já virou doença crônica? A alienação chegou ao ponto de anestesiar mente e coração do povinho? A ilusão chamada 'democracia' conseguiu 'doutrinar' a maioria a crer que sua função social é votar e o resto, "deixa com eles"? Ainda crêem que ela é a melhor forma de governo e nos proverá de tudo o que necessitarmos? Culpar o poder público por tudo, mas não mover um dedo para mudar o status quo pode ser classificado de quê? Até quando a miserabilidade cultivada que toma conta da essência da humanidade vai perdurar? Até quando suportaremos? Se uma revolta mundial eclodir, quantos sobreviverão, como estarão e qual será o legado que herdarão desta "Era de Hipocrisia"?
Confesso não ter estômago nem para imaginar as respostas.
FAB29